terça-feira, 26 de maio de 2020

Vitimas do Covid-19 necesitam de ajuda médica, não de preconceitos. São Miguel do Gostoso se preocupa com construção de novo parque eólico na pandemia


Por Emanuel Neri
No período mais crítico da crise do HIV/Aids, entre os anos 80 e 90, um colunista da Folha de S. Paulo, Sebastião Nery, fez uma dura observação sobre aquela doença que começava a assustar o mundo.
“Além de matar, a Aids também difama”, escreveu o jornalista em um de seus artigos para aquele jornal paulista.
Agora, mais de 30 anos depois, aquela triste avaliação parece se repetir com a pandemia do Coronavirus (Covid-19).   Talvez a crise sanitária atual não chegue a difamar suas vítimas, mas faz cair sobre elas uma enorme carga de preconceitos.(foto). Todos nós precisamos combater esta outra doença que envolve o Covid, que é o preconceito.
As vítimas do Covid-19 precisam de preocupação e cuidados médicos, não de preconceitos. Embora haja exceções, pessoas cujo teste desta doença resulta positivo se submete, obrigatoriamente, ao confinamento e ao isolamento de outros parentes e amigos. Mas muitas sofrem preconceitos da sociedade.
O combate ao preconceito é uma das preocupações de profissionais de saúde, no Brasil e no mundo,  que estão na linha de frente do combate a esta terrivel pandemia.
Aqui mesmo, em São Miguel do Gostoso, onde felizmente as barreiras e cuidados sanitários tem impedido uma maior propagação da doença, vez por outra se vê autoridades de saúde fazendo comentários preconceituosos. A  preocupação maior parece ser manter o mapa epidemiológico local inalterado.
Na semana passada, houve polêmica envolvendo uma pessoa contaminada que mora em Monte Alegre, praticamente colada a São Miguel do Gostoso, mas que pertence ao município de Touros. Importante dizer que pessoas contaminadas não são números, mas sim vitimas que precisam de cuidados médicos.
Qualquer pessoa, no Brasil ou no mundo, pode se contaminar com o Covid-19. As previsões de autoridades da saúde são de que, se não for descoberta rapidamente uma vacina, quase dois terços da população mundial possam ter contatos com o vírus. Alguns superam o vírus com facilidade. Outros morrem.
“É claro que não podemos ignorar nem discriminar as pessoas que vierem a ter Covid-19 ou alguma suspeita desta doença. Mas sim apoia-las e orientá-las no sentido de como proceder e de como deve fazer para superar este problema”, diz Teresa Neri, enfermeira e ex-secretária de Saúde de São Miguel do Gostoso.  
São Miguel do Gostoso tem apenas um caso de Covid-19.  É um dos municípios da chamada região do Mato Grande com menor número, junto com São Bento do Norte. Touros, por exemplo, tem 39 confirmados, enquanto João Câmara tem 10, Rio do Fogo tem 9, Pedra Grande tem 7 e Caiçara do Norte tem 5. Ceará Mirim, com 64 casos, é o maior número da região. Estes dados, do Boletim Epidemiológico  do RN, foram repassados ao noBalacobaco pelo blog O Contador de Causos.
Pesquisa reprova ação da Prefeitura
Se as pessoas não devem ter preconceito com vítimas do Covid-19, é importante que elas sejam ouvidas sobre providências que devem ser adotadas para evitar que a doença se aproxime delas.  São Miguel do Gostoso, por exemplo, reprovou a abertura da cidade, feita pela Prefeitura local, para a construção de novos parques eólicos.
Enquete/pesquisa feita recentemente pela AmeGostoso, uma das associações  que reúnem empresários da cidade, usou uma plataforma do Google para ouvir a opinião de moradores sobre decreto da Prefeitura de permitir que trabalhadores, de outras regiões do RN e de outros Estados, se instalassem na cidade.
Segundo a AmeGostoso, 220 pessoas responderam, espontaneamente, os dados da enquete – a plataforma do Google não permite que um mesmo celular responda ao questionário mais de uma vez. Veja os resultados desta enquete:
1)73,6% das pessoas que disseram que a Prefeitura de SMG deveria anular o decreto que “liberou a entrada de funcionários para a instalação de novos parques eólicos”. Já 26,4% concordaram com a medida.
2)Para a pergunta se o morador “aprovou este decreto da Prefeitura”, 79,1% disseram que não, enquanto 20,9% disseram que aprovaram a iniciativa.
3)Para a última pergunta da enquete – “você se sente seguro com a abertura de novos parques eólicos durante a pandemia do Covid-19?” -, 83,2% das pessoas disseram que não. Já 16,8% apoiaram a iniciativa da Prefeitura.
O decreto municipal que autorizou a construção de novo parque eólico, em plena pandemia do Covid-19, foi assinado pelo prefeito Renato de Doquinha no final de abril. O decreto também liberou pousadas para hospedarem estes trabalhadores. Poucas pousadas da cidade acataram a orientação municipal.
Até a semana passada, 85 trabalhadores deste parque já estavam na cidade, hospedados em pousadas ou casas alugadas. Enquanto isso, dois técnicos que trabalhavam em parque eólico já existente no município foram diagnosticados com o Covid-19. Ambos são de Mossoró, forte foco da doença no RN – os dois estão em sua cidade.
Ceiça Modesto, que preside a AmeGostoso, disse que pediu explicação do prefeito sobre a abertura da cidade para a construção de novos parques eólicos, mas que não foi atendida. “Então pensamos em algo que comprovasse a vontade da maioria da população. Por isso buscamos esta pesquisa”, diz Ceiça.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Alerta máximo em São Miguel do Gostoso. Dois empregados de empresa eólica hospedados em pousada da cidade estão contaminados por Covid-19


Por Emanuel Neri
Sinal de alerta máximo para a contaminação  pelo Covid-19 (foto à esquerda) em São Miguel do Gostoso.
Nesta terça-feira, dois casos positivos do vírus que vem assustando todo o mundo foram confirmados na cidade. São dois empregados de  uma conhecida empresa de energia eólica que opera em São Miguel do Gostoso. Os dois rapazes estavam hospedados em uma pousada no bairro do Maceió.
Na última sexta-feira, os dois rapazes viajaram para Mossoró, cidades onde moram, e não votaram no domingo para a pousada, conforme estava previsto. Na segunda-feira, a pousada ficou sabendo que a Vigilância Sanitária da cidade havia recebido telefonema anônimo, de um empregado da empresa eólica, dizendo que os dois rapazes tinham testado positivo para o Covid-19.
Ainda na segunda-feira, a Vigilância Sanitária foi à pousada para confirmar que os dois empregados da eólica, que estavam hospedados ali,  estavam contaminados. O estabelecimento foi interditado. Nesta terça, quatro empregados da pousada foram enviados para Natal, para fazerem o teste e saberem se estão ou não contaminados.  
A pousada está fechada e nesta quinta (21/5) vem uma empresa especializada fazer a higienização do estabelecimento. Segundo a pousada, um dos rapazes não trabalhou na semana passada por se sentir mal, com diarreia. Mas a eólica, responsável pela hospedagem, não avisou nada sobre a contaminação.
Bem grave esta situação. Os gastos com testes da Covid (R$ 380 cada) e transporte até Natal foram pagos pela pousada. Além disso, também vai pagar a empresa especializada que vem nesta quinta para desinfectar a pousada. Qualquer que seja o resultado dos testes, funcionários da pousada vão entrar em isolamento.
Como todas as pousadas de São Miguel do Gostoso, o estabelecimento onde este fato ocorreu passou a receber empregados de eólicas, antes do final de abril, atendendo a decreto da Prefeitura local. Este decreto autorizava que pousadas locais recebam pessoas que trabalham em empresas eólicas.
Apenas poucas pousadas aceitaram a orientação da Prefeitura e abriram para receber empregados de eólicas. A maioria das pousadas de São Miguel do Gostoso continua fechada e não recebem trabalhadores de eólicas. Atualmente há 85 trabalhadores de eólicas hospedados em pousadas ou em casas alugadas. Fora os que já trabalhavam há mais tempo em eólicas.
Segundo a Vigilância Sanitária da cidade, o escritório da eólica em que os dois empregados trabalhavam foi interditado. Cerca de 10 empregados que trabalhavam no local, entre eles moradores de São Miguel do Gostoso, foram submetidos ao teste do Covid-19 e ficarão em isolamento a partir de agora.
Até agora São Miguel do Gostoso estava livre de maiores riscos de contaminação pelo Covid-19. Pousadas e restaurantes estavam fechados e havia bloqueio na entrada da cidade (sentido de quem vem de Touros e Natal). Mas tanto Prefeitura como eólicas deviam ter ficado mais atentas.
Há um decreto estadual, de numero 29583/2020, que inclui entre as atividades essenciais a produção de energia elétrica. Trata da  geração, transmissão e distribuição de energia. Mas o decreto não cita a implantação (construção) de novos parques eólicos. Com isso, há entendimento de que o prefeito não poderia ter aberto o município para a construção de novos parques eólicos, que trazem trabalhadores de outras regiões para trabalharem no município.
Em abril, a Prefeitura  flexibilizou o bloqueio da cidade para que trabalhadores destes parques eólicos em construção pudessem entrar na cidade, desde que comprovem seu contrato de trabalho no município. É claro que isso deixou a cidade mais vulnerável, pois nem testes de Covid nem exigências de quarentena mais rígida foram exigidos para estes trabalhadores.
A flexibilização no bloqueio da cidade, para trabalhadores de empresas eólicas, levou a Aegostoso, associação de empreendedores da cidade, a enviar notificação extrajudicial  à  Prefeitura, alertando sobre esta conflito entre o decreto estadual, que não inclui construção de novos parques eólicos como serviços essenciais, e a decisão adotada pelo município. Um destes novos parques está sendo implantado na Fazenda Cumaru, em um dos distritos do município.
Touros também preocupa
Até agora, São Miguel do Gostoso era um mar de tranquilidade diante da ameaça do Covid-19. Havia um único caso confirmado, o de uma garota distrito do Arizona, que provavelmente se contaminou em um hospital de Natal, durante tratamento de asma. Fora ela, há dois casos suspeitos e dez casos descartados. Nenhum óbito.
Além dos dois rapazes de Mossoró que trabalhavam na eólica, o sinal vermelho de perigo foi aceso. Outras pessoas que trabalham com ele, ou mesmo empregados da pousada, podem estar contaminados.
Além destes casos locais, há o elevado número de contaminados em Touros, município vizinho a São Miguel do Gostoso. Treze casos de Covid-19 foram confirmados, além de dois óbito, em Touros.  
Por estar próximo a São Miguel do Gostos, Touros recebe muitos moradores gostosenses que vão à cidade, fazer compras, ou à Caixa Econômica, para receber o auxílio de emergência de R$ 600 do governo federal. Além disso, funcionários da Prefeitura sacam seus salários na agência do BB de Touros.
Já faz tempo que se pede que a Prefeitura transfira sua folha de pagamento para a agência do Bradesco em São Miguel do Gostoso. Se isso já tivesse sido feito, os empregados municipais não teriam que ir a Touros para receberem seus salários no BB. Até agora, lamentavelmente, nada disso foi feito.
Além do risco de se deslocarem até Touros, a folha da Prefeitura no BB também traz desvantagens para o comércio de São Miguel do Gostoso. Como os servidores municipais se deslocam até Touros para receberem seus salários, acabam fazendo suas compras naquela cidade.
Se a Prefeitura já tivesse transferido sua folha de pagamentos para o Bradesco de São Miguel do Gostoso, com certeza haveria hoje bem menos riscos de contaminação pelo Covid-19.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Procuradoria do Meio Ambiente manda Idema apurar denúncia de crime ambiental em São Miguel do Gostoso com a abertura da lagoa do Cardeiro


Por Emanuel Neri
Mais cuidado com nosso meio ambiente, senhor prefeito.
Pela segunda vez em pouco mais de um mês, o prefeito de São Miguel do Gostoso, Renato de Doquinha, é obrigado a responder a sérias denúncias sobre crimes ambientais praticados no município, em sua gestão.
Desta vez, o motivo da denúncia foi a abertura de uma enorme vala, feita por trator da Prefeitura, para que a lagoa do Cardeiro escoasse para o mar. A água que saiu da lagoa para o mar levou com ela milhares de peixes e camarões, além de arrastar ninhos de tartaruga que estavam no entorno da lagoa.
No mês de março, o prefeito e o engenheiro da Prefeitura, Fernando Castro, foram alvos de investigação do Idema RN por terem aberto uma trilha, nas praias urbanas da cidade, para que carros tracionados, bugues e quadriciclos trafegassem por ali. O Idema autuou os responsáveis pela ação e mandou parar a obra.
Desta vez a denúncia é ainda mais séria. A procuradora do Patrimônio e da Defesa Ambiental do Rio Grande do Norte, Marjorie Madruga Alves Pinheiro,  abriu processo administrativo e pediu que o Idema, órgão ambiental do RN,  apurasse imediatamente aquilo que ela definiu como “crime ambiental”.
A Denuncia da procuradoria fez com que, ainda na manhã desta sexta (24/4), uma equipe do Idema viesse a São Miguel do Gostoso (foto) para fazer  vistoria na lagoa e verificar os danos ambientais causados com sua abertura para o mar. O Idema esteve no local acompanhado pelo engenheiro Fernando Castro.
Ao abrir o processo investigativo contra a Prefeitura de São Miguel do Gostoso, a procuradora Marjorie Madruga atendeu denúncia feita por Ana Catarina da Nóbrega Simões, moradora da cidade. Catarina encaminhou denúncia junto com fotos de ninhos de tartaruga que foram destruídos pela abertura da lagoa.
A moradora de São Miguel do Gostoso também encaminhou à Procuradoria Ambiental fotos da lagoa quase sem água, com muitos trechos de lama, e  um vídeo em que um trator abria a vala para que as águas da lagoa escoassem para o mar. No vídeo, alguém fala que havia um “fiscal da Prefeitura” no local.
É grave a denúncia feita pela procuradora Marjorie Madruga contra à Prefeitura de São Miguel do Gostoso. Além de dizer que a Prefeitura é reincidente, pois também abriu a lagoa com tratores no ano passado, ela também solicitou providência aos Ministérios Público Federal e ao MP do RN.
Neste caso, sendo seja confirmado crime ambiental na lagoa do Cardeiro, tanto o prefeito como outros funcionários municipais, responsáveis pela ação, poderão responder a processos dos Ministérios Público Federal e do MP Estadual. Dependendo da responsabilidade de cada um, poderá haver severas punições.
Comportas na lagoa
Este blog falou com várias autoridades ambientais do Rio Grande do Norte. Para eles, o que mais espanta é o fato de a Prefeitura não ter ainda adotado providências técnicas recomendadas, inclusive pelo próprio Idema, para controlar o aumento da água sem necessidade de abrir o canal da lagoa para o mar.
Esta solução técnica é uma espécie de comporta (ou dique) que regula a subida das águas. Caso as chuvas elevem muito, parte das comportas são abertas, fazendo que a lagoa baixe seu nível de águas sem necessidade de uma abertura total para o mar. Mas até agora a Prefeitura não se preocupou com isso.
Sem a construção das comportas – há ainda outro projeto de um arquiteto que têm negócios na cidade -, a Prefeitura desrespeita as orientações do Idema e manda seus tratores esvaziarem a lagoa, causando sérios estragos ambientais. O esvaziamento da lagoa também provoca lama com forte odor reclamado por moradores.
Além dos sérios problemas ambientais, o esvaziamento da lagoa do Cardeiro também faz com que a cidade perca um dos seus principais cartões postais e ponto de grande interesse turístico. Há projetos também para a construção de um parque no entorno da lagoa, melhorando ainda o aspecto urbano daquela área.
Mas o fato é que a Prefeitura local não se preocupa nem um pouco em fazer melhoramentos na lagoa do Cardeiro. Com isso, a cidade vê, todos os anos, aquela bela e exuberante lagoa, cravada em plena área urbana da cidade, virar um mar de lama, fétida, que envergonha turistas e moradores de São Miguel do Gostoso.