segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Moradores do Boqueirão (Touros) acusam empresa de grama por desmate e por secar lagoas da região



Por Emanuel Neri
A lagoa do Boqueirão, no município de Touros, sempre foi referencial de abundância de água na região do Mato Grande (onde está Touros e São Miguel do Gostoso), no Rio Grande do Norte. Ali existia um verdadeiro “marzão” de água doce, suficiente para abastecer milhares de famílias e muitos projetos agrícolas.
Pois agora a lagoa do Boqueirão está secando. Segundo o Instituto de Gestão de Água do RN (Igarn), hoje existe menos de 60% da água que originalmente havia ali. Nas últimas projeções do Igarn, havia em torno de 7 milhões de m3 dos mais de 11 milhões de m3 de água que existiam antes. E a situacão pode piorar.
Se houver nova medição nos dias atuais, este volume de água da lagoa do Boqueirão pode estar ainda mais baixo.
Quem são os responsáveis pela redução drástica da água do Boqueirão?
É claro que a seca que se prolonga no Nordeste por vários anos é um destes fatores. Mas a culpa também é dos inúmeros projetos agrícolas que existem no entorno da lagoa, muitos deles abastecidos por gigantescos esquemas de irrigação. Um destes projetos é o da Itograss (foto acima, com pivô de irrigação), que produz grama em alta quantidade naquela região.
Pois é exatamente a Itograss que é apontada pelos moradores do Boqueirão como a responsável pela escassez de água na região. Mais do que a redução da água, esta lagoa também está sofrendo uma espécie de “desertificação” em suas margens. Lama seca rachada e grandes áreas desmatadas são os cenários dos dias atuais em toda a região que envolve a lagoa.
Mas, para os moradores do Boqueirão, um dos distritos de Touros, onde está localizada a lagoa, o “vilão” desta história é mesmo a Itograss. Por este motivo, estes moradores, junto com a Câmara Municipal de Touros, realizaram audiência pública nesta segunda-feira (28/11), com a participação de centenas de pessoas, entre elas a direção da Itograss.
Foram mais de seis horas de acalorada discussão. De fato, a Itograss tem 170 hectares de grama cultivada no entorno da lagoa do Boqueirão - há ainda mais terra sem ser cultivada. A empresa é uma das maiores produtoras de grama do Brasil e responsável pelo abastecimento de quase  todo o Nordeste. Cada hectare corresponde a 10 mil metros quadrados.
Numa comparação para tornar a explicação mais fácil, um hectare corresponde, grosso modo, a um pouco menos que um campo de futebol. Então, segundo os moradores, há em torno de 240 campos de futebol cultivados com grama. Para os moradores, só a Itograss consome em torno de 17 milhões de litros de água por dia.
De fato, dados técnicos indicam que há necessidade de 10 litros de água para cada metro quadrado de grama cultivada. Mais: cada ser humano, segundo a ONU, necessita de 110 litros de água por dia para seu consumo e higiene. Por aí você vê o tamanho da enorme quantidade de água (17 milhões de litros) para irrigar os campos de grama da Itograss. 
Além disso,os moradores dizem que a Itograss emprega pouca gente – apenas 40 empregos diretos e outros 100 indiretos. Eles também acusam a Itograss pelo desmatamento em toda a região e pelo uso de defensivos agrícolas para o cultivo de grama em seus enormes campos de plantio.
Baseados em dados como estes, os moradores do Boqueirão estão exigindo a retirada da Itograss das margens da lagoa do Boqueirão. E compareceram à audiência pública desta segunda vestindo camisetas verdes onde se lia, no peito, “Fora Itograss”, enquanto nas costas estava escrito: “Eu não como grama”.
Foi uma guerra dura para a Itograss. Os moradores acusam a empresa de se abastecer não só na lagoa como de captar água do subsolo do entorno da lagoa com potentes motores de até 100 cavalos de potência. É muita água que sai do lençol freático da região – para os moradores, isso pode afetar o abastecimento humano da região.
Na opinião dos moradores do Boqueirão – e de Touros, também presentes na audiência pública – o processo de capacitação de água da Itograss está secando o rio que passa pela cidade de Touros. Líderes do movimento acham que a retirada de água do subsolo afeta outras lagoas da região, como a lagoa do Coelho, em Cajueiro (Touros).
Esta é uma batalha ambiental, e econômica, por envolver uma grande empresa, que ainda pode gerar muito barulho. A Itograss se defende, alega que outras empresas também captam água na região e diz estar disposta a negociar com os moradores. A empresa quer apresentar contrapartidas sociais e ambientais para enfrentar o problema.
Seja como for, estamos diante de um problema ambiental. As autoridades ambientais do RN precisam se posicionar e dizer se a Itograss é ou não a “vilã” da “desertificação” no Boqueirão, de Touros e até de outros municípios, como São Miguel do Gostoso, onde a lagoa do Cardeiro está vazia, sem quase sinal de água.
Este é o debate ambiental que está na mesa. A Itograss precisa ceder para poder consumir menos água e causar menos impactos ambientais. Mas os moradores também precisam sentar na mesa de negociação para encontrar soluções, sem o “Fora Itograss”, mas com foco na redução e no consumo sustentável da água, bem como em contrapartidas sociais para a região.
Abaixo, links sobre consumo de água por habitantes, uso de água na agricultura, bem como o acesso ao blog “Fala Meu Povo”,também disponível no You Tube, de Touros, que tem acompanhado mais de perto a batalha entre moradores do Boqueirão e a Itograss.

7 comentários:

  1. Plantar grama nessa região seca e utilizar água das lagoas e do lençol freático parece mais uma piada de mal gosto. A lagoa do Coelho está agonizando. Com certeza depois de secar toda a água da região essa Itograss vai dar uma banana para o povo e procurar novos lugares com água aonde encontre outros otarios iguais ao que encontrou em Touros.Aquilo vai virar uma paisagem lunar sem uma gota d água. Socorro !!!!!!
    Natanael

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  2. Realmente nunca concordei com essa itogras que não trás retorno nenhum para o município, somente destrói o meio ambiente e lucram absurdos. #foraitogras

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  3. Certo que essa empresa é a maior consumidora dágua da lagoa do Boqueirão, mas também deve olhar para tantas irrigações que consumem também, para cortar o mal pela raiz tem que ser geral o corte no abastecimento dágua, só assim a lagoa sobrevirá, caso contrário já era.

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  4. Isso é crime ambiental sério. Ministério Público já. .......

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  5. Depois que a água acabar não venham orar para Jesus mandar água porque ele deu ao povo e este não tomou conta

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  6. Caros amigos, primeiramente seria necessário um estudo técnico para confirmar o dano ao meio-ambiente por parte desta empresa específica, e de outras empresas. Confirmado que a atividade da empresa está causando dano ao meio-ambiente, turístico ou paisagístico, não é necessário esperar pelo Ministério Público. Qualquer associação ou ONG voltada ao meio-ambiente ao patrimônio histórico-paisagístico (como a AMJUS. e.g.) pode ajuizar Ação Civil Pública contra danos ao meio-ambiente para que se interrompa os agentes causadores. É necessária uma iniciativa urgente por parte das associações de proteção.

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  7. O negocio é assustador

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